A quantidade e qualidade das bolachas

Os meus dois maiores erros em 2016

Me considero uma eterna positiva. Pra mim é muito fácil ver acertos em praticamente tudo. Perceber os erros, porém, é um exercício que requer muita reflexão e tempo disponível para tentar encontrar a raiz de certos problemas que geram desconforto. Percebo cada vez mais que, no fim das contas, é isso que nos faz crescer.

Esse ano, aliás, foi bem difícil de encontrar o tal do "tempo disponível"— o que é natural em um primeiro ano de um negócio que exige muita execução e operacionalização. Como se não bastasse, para um negócio tão jovem, feito sem investimento de terceiros, foi necessário ser CEO, contadora, designer, servir cafezinho, varrer a casa, e mais mil outros chapeuzinhos (não que eu ache que ano que vem será diferente…).

Bristol, Inglaterra — Dez 2016

Foi só agora em dezembro, quando me escondi em Bristol (Inglaterra) no aconchego da casa da minha irmã que me peguei, entre um chazinho, uma banana e um ovinho, percebendo padrões, erros e, consequentemente, aprendizados.

Foi vendo o lado negativo de algumas coisas que, de uma maneira eternamente positiva, reflito sobre meus dois principais erros de 2016:

1 — Inflamos!

O ecossistema da abeLLha é uma realidade linda que requer um trabalho gigante, pois tem 3 braços (a incubadora de projeto de impacto social e colaborativo; o Honeycomb, que ajuda empresas a operarem de forma horizontal, colaborativa e transparente; e o GoodPeople, app que conecta talentos a oportunidades) que foram lançados quase que ao mesmo tempo por um time de somente 10 pessoas.

Estamos crescendo bem, apesar das dificuldades e contratempos. É legal demais fazer algo que gera impacto na sociedade, trabalhar com um monte de gente com projetos bacanas e ser agente ativo na construção de uma nova economia, que visa a horizontalidade e a colaboração como bases fundamentais.

Só que não é fácil fazer acontecer. Requer paciência, resiliência, organização e, acima de tudo, mão na massa.

De tempos em tempos chega gente querendo fazer parte disso tudo e é maravilhoso perceber que as pessoas se interessam pelo seu negócio. Elas são bacanas, tem talentos, e é natural querer trazê-las para perto porque "Uau, quanta gente demais!". Só que o problema foi justamente esse: demos espaço para que algumas pessoas chegassem, sem nos darmos conta de que tem gente que quer fazer parte sem ter que fazer nada.

Vou explicar melhor. O problema está muito mais no primeiro ponto do que no segundo.

O "fazer parte sem ter que fazer nada" aconteceu muito mais porque não estabelecemos clareza daquilo que esperávamos de certas pessoas do que porque eles só queriam "entrar no barquinho sem remar".

O famoso "o combinado nunca sai caro", por vezes quase saiu caro demais: perdemos o timing em alguns projetos e outros se extenderam muito além do que deveriam. Na maioria desses casos, a equipe inflou. Tínhamos definição de papeis solta, gente envolvida sem saber direito o que era esperado delas e o que elas poderiam esperar da gente. Fugimos, por vezes, da nossa própria metodologia, o Honeycomb, que é feito pra organizar tudo isso.

Foi um processo enxergar essa falta de contexto, não só na maneira como inserimos algumas pessoas, mas também na forma com que fizemos a gestão de algumas iniciativas.

Felizmente, ao longo do ano, nos beliscamos. A cada hora um notava uma pontinha solta e, ai, começamos a amarrá-las, gerando melhores processos e melhor entendimento do quão poderoso era o Honeycomb (que deixa extremamente transparente onde a empresa deve ir e qual o papel de cada um ali dentro). Percebemos que, muitas vezes, um time menor, com mais foco, mais qualidade, mais clareza de contexto e mais alinhado produz melhor.

O que fica: Simplifique seus acordos, tenha as expectativas dos dois lados 100% alinhadas e definidas. Não traga ninguém que não seja extremamente necessário para o seu time ou projeto. Aqui vale o clichê: uma coisa de cada vez, com mais qualidade e menos quantidade.

2 — O peso do seu negócio nunca é tão grande quanto você imagina

Eu posso ser considerada uma pessoa inclinada a me afundar na vida de workaholic: ainda não tenho filhos (apesar de ter 2 cachorros que são como filhos, o Sebá e o Snoopy), estou relativamente longe da minha família (que está em SP, EUA e UK e eu no Rio), moro sozinha e sou absolutamente apaixonada pelo que faço.

Ser workaholic, aliás, é até esperado de empreendedores: trabalhar como se não houvesse amanhã, otimizando até com manteiga no café! Work hard-play hard, durmo quando eu morrer (!), 5am club, Bulletproof Coffee, banho gelado e mais umas outras mandingas.

Estou no fim do primeiro ano de um negócio que vem escalando com solidez e velocidade saudáveis e que demanda muito a minha presença. Não importa qual a estratégia, o trabalho não acaba, nem nunca vai acabar. Perceber isso já é um começo pois vejo que não é tentando otimizar minha rotina que eu vou cruzar antes a linha de chegada.

Chegar não existe.

Compreendendo isso (e olha que eu sou a rainha de tentar otimizar tudo!), comecei a relativizar o peso do meu trabalho. É minha vontade encontrar o equilíbrio dentro do meu contexto de vida, independente das "regras do mundo do empreendedor".

Em certos momentos, claro, esqueci disso tudo, achei que o negócio vinha acima de tudo e atropelei muita gente. A ansiedade me fez tomar decisões atrapalhadas. Tive pressa e tentei encontrar atalhos. Minha sorte é fazer parte de uma equipe que é totalmente diferente de mim e de a abeLLha ter uma cultura de questionamento onde todos se sentem donos do negócio. A gente se breca e se acelera a toda hora.

Percebi, também, que:
(1) o que fazemos é especial, mas não estamos sozinhos vestindo essa coroinha;
(2) nossa maneira de fazer as coisas não é necessariamente a melhor, é apenas a que funciona pra gente;
(3) somos importantes, porém mais importante ainda é o trabalho que é feito e os resultados que entregamos hoje, independente de planos futuros (que não devem ser descartados para que possamos atingir nossa visão).
Isso é sustentável.

O que fica: Buscar um equilíbrio de rotina que faça sentido pra mim é essencial. Tentar não entrar no rush do mundo empreendedor, também. Perceber que o meu negócio não é mais importante que tudo ao meu redor é um exercício que preciso fazer constantemente. É tanto quanto, mas não mais. Continuo correndo atrás do que acredito, sempre, mas sem achar que o que faço é a última bolacha do pacote!

(é bolacha, não é biscoito!)

E pra 2017?

Não sei. Mas com certeza errar novos erros e seguir aprendendo.

Meus textos não existiriam se não fosse pelos olhos críticos da Nath Cardoso e do Fel Mendes. Obrigada pelas edições ;)

Meu foco é compartilhar conhecimento prático e aplicável para quem tem ou deseja ter uma empresa ou startup. Fundadora da abeLLha e VP na HBO Max.

Meu foco é compartilhar conhecimento prático e aplicável para quem tem ou deseja ter uma empresa ou startup. Fundadora da abeLLha e VP na HBO Max.