Os desafios de trabalhar com negócios de impacto social no Brasil

Quando fundei a abeLLha — incubadora de negócios de impacto social — em janeiro de 2016 eu mal sabia o que tava fazendo. Nunca tinha trabalhado em incubadoras ou aceleradoras, nem me aprofundado muito na teoria de negócios de impacto. Também não sabia quem eram os players que atuavam no Brasil ou no mundo (fora o Yunus, né chente?).

Eu tinha, porém, aprendido algumas coisas construindo a minha primeira empresa em NY (uma consultoria de negócios digitais) e no bomnegócio.com / OLX: principalmente como lançar algo do zero e escalar, como fazer as coisas de forma enxuta, e como conectar o que as pessoas buscam com o que a empresa tem a oferecer.

Acima de tudo, ficou muito claro pra mim, depois de ver o impacto que a OLX tem na sociedade (hoje são mais de 50 vendas por minuto contribuindo para uma economia mais sustentável e consumo mais consciente), que eu tinha entrado num caminho sem volta: seria impossível dali pra frente trabalhar em qualquer projeto ou empresa que não contribuísse para o mundo que desejo viver.

A maneira mais clara que eu poderia fazer isso era ajudar com o meu conhecimento as ideias, projetos e negócios que contribuíam na construção de um mundo mais horizontal, colaborativo e transparente. Foi assim que surgiu a abeLLha.

Agora convenhamos que essa definição de ser horizontal, colaborativo e transparente é bem vaga, né? Aos poucos direcionamos nosso foco na definição de que projetos queríamos apoiar, assim como criamos e melhoramos a nossa metodologia, que hoje está bem mais afiada.

Quanto mais a gente faz o que faz, mais enxergamos os desafios de abrir caminho nesse matagal sem track record e cheio de desafios. Abaixo uma análise empírica.

Isso vale tanto para os empreendedores, quanto para quem dá suporte ao ecossistema de empreendedorismo de impacto (Incubadoras, Aceleradoras, VCs de Impacto, Mentores etc).

Até para o empreendedor que já empreendeu antes, construir um negócio escalável focado no impacto é desafiador: modelos de negócio que ainda precisam ser validados, falta de recursos e apoio (tem gente apoiando, mas muitas vezes a informação não chega em quem deveria) e falta de confiança do mercado.

Até hoje, não existe um exemplo claro no Brasil de empreendimento social que escalou e gerou retorno financeiro e impacto em grande escala. Para entender resultados, um empreendedor maduro vai levar facilmente de 3 a 5 anos com apoio. Um mais iniciante e com menos capacitação (ou privilégio) pode levar bem mais que isso pois existem barreiras educacionais, culturais e de acesso a recursos.

A maioria das pessoas que resolveram criar empresas de apoio ao empreendedor social (incubadoras, aceleradoras, VCs etc), como eu com a abeLLha, também nunca fizeram isso antes. Saíram de seus empregos mais tradicionais movidos por um incômodo de fazer o que acreditam com os talentos que possuem.

Só que é tanto trabalho que cada um faz o que consegue, do seu jeito, sem muito tempo pra conectar e encontrar como cada esforço pode potencializar a criação de um ecossistema forte e coeso.

O que me leva ao segundo ponto…

Podemos melhorar muito a conexão de incubadoras, aceleradoras, fundos etc entre si e com o empreendedor social. Como difundir melhor os editais, as soluções, quem faz o que, que ferramentas existem e acesso a capital para este tipo de empreendimento. Um exemplo: a abeLLha faz um trabalho super complementar ao da Baanko, lá em BH e a gente foi se conhecer faz poucos meses!

Como ser eficaz em criar essa liga é um desafio. Enxergo hoje um movimento forte de todos que apoiam (aceleradoras, VCs, incubadoras etc) tentando uma conexão maior e buscando as complementaridades para gerar valor claro para o empreendedor. Acho que o caminho é por aí: como criar uma rede coesa e complementar, que potencializa cada negócio dentro do seu propósito e dá ao empreendedor, como consequência, um apoio mais robusto.

Existem muitos Venture Capitals de impacto (os VCs: fundos de investimento pra negócios de impacto social) pra quem já "tracionou" (tem modelo de negócio validado, clientes e busca escalar com uma "injeção" de dinheiro). Aliás, tem fundo hoje com milhões "de sobra", literalmente, que não consegue encontrar um projeto pra investir.

E por que isso acontece? Pois a dificuldade de chegar nesse estágio de tração é enorme. O empreendedor (todos, o social pior ainda) que tá começando tem tantos desafios no início que para chegar no estágio de ser atraente pra um VC tem que passar por muitas barreiras.

A começar pela burocracia financeira, contábil e tributária que temos no Brasil; a falta de recursos para o empreendedor se manter vivo financeiramente até que consiga entender o caminho pra um modelo de negócio escalável e sustentável; e a falta de informação sobre possíveis caminhos e fontes de apoio e desenvolvimento.

Do lado dos investidores e VCs, que para se manterem vivos e apoiando mais negócios de impacto precisam ter modelo de negócio baseado em retorno de algum exit (quando se vende um negócio ou a empresa se torna pública), fica claro o risco de se colocar tanta grana no comecinho, quando existe grande chance do negócio não vingar.

E aí? O que fazer?! O ovo e a galinha ou a galinha e o ovo?!

Uma caminho que observo viável é por meio de empréstimos. Não existem muitos, mas a Sitawi, por exemplo, se encaixa aí pois oferece não só investimento em vários estágios, como empréstimos com taxas abaixo do mercado para empreendimentos socioambientais. No processo deles, o empreendedor deve demonstrar a sua capacidade de repagamento, fibra ética e habilidades de gestão mesmo que em estágio inicial. Isso poderia ser oferecido pelo governo, também, como fomento à inovação.

Apoio do governo / estados com fundo perdido pode ser outra injeção de ânimo nesse sentido. Um exemplo é o Seed, do governo de MG, que dá até 80 mil reais pra empreendedores early stage (estágio inicial) fora o apoio com a rede e benefícios sem levar nenhuma porcentagem dos selecionados (O Seed seleciona empreendimentos muitos sociais).

Outra opção é o financiamento coletivo (crowdfunding) para as validações iniciais, que possibilita não somente a conexão com quem compra de coração (e literalmente) a sua ideia, como traz viabilidade financeira de forma transparente e colaborativa. Hoje temos um projeto na abeLLha que busca viabilizar seu produto beta por meio de financiamento coletivo no Catarse. A Benfeitoria é outra que também ajuda muitos negócios de impacto social a sairem do papel.

Isso vale tanto para os VCs e investidores, como pontuei acima, quanto pra aceleradoras e incubadoras. Pra quem trabalha em cima de exit, o fator de risco e maturidade do negócio é chave na sustentabilidade e longevidade (e por isso o apoio em negócios que já "tracionaram").

A gente, na abeLLha, ainda quebra a cabeça pra entendermos qual o modelo de negócio mais sustentável a longo-prazo para que a gente possa continuar nosso trabalho. Nosso foco principal é desenvolver o empreendedor que está no comecinho da jornada: nas validações iniciais do mercado, do modelo de negócio e do produto ou serviço. A gente faz isso pois acreditamos que esse trabalho seja essencial pra criar uma cadeia forte de negócios de impacto no Brasil.

Porém, esses negócios que apoiamos, na maioria das vezes, não conseguem pagar o custo mínimo do nosso trabalho. Assim, estamos como uma estratégia meio Robin Hood: oferecemos nossa metodologia de inovação e consultoria de impacto social para empresas médias e grandes para que possamos financiar os empreendimentos sociais em early stage.

Será que isso segura? Ainda estamos avaliando :)

Ainda existe grande reflexão e divergência de opiniões sobre o que é impacto social e muitas perguntas sem respostas claras.

Para uns implica não somente na resolução de um problema e seu potencial de escalabilidade e monetização, mas também em como é feita a divisão de lucros. Pra gente, por exemplo, o que é feito com o lucro deve ser decidido pelo empreendedor, já que foi ela ou ele que tomou o risco inicial.

A questão de escala é outro ponto: será que uma iniciativa que atinge somente uma cidade ou bairro é menos sustentável e terá menos retorno que uma nacional ou global? A resposta óbvia é que sim quando se pensa em retorno financeiro, porém será que o impacto, efetivamente, não poderia ser mais profundo com um modelo replicável?

Como medir impacto já que cada iniciativa tem um indicador totalmente diferente e muitas vezes difícil de quantificar?

E, no fim do dia, o que é ter impacto social?

Pra gente, impacto vai desde gerar renda e empregos, a ninguém passar fome, a saúde e saneamento básico, a aumento de auto-estima, a processos, soluções e produtos que fazem bem ao meio ambiente, a um mundo mais inclusivo, mais transparente e com educação básica para todos — pra listar algumas coisas.

Pensa comigo: se eu tenho tudo isso listado aí em cima e muitas outras coisas mais que me possibilitam o básico de viver bem, eu poderei ser quem almejo ser e buscar os caminhos para tal.

Isso é um negócio de impacto social: criar uma empresa (e ter lucro!) que resolva um dos problemas que certa parcela da população tem, e que a iniba de encontrar o caminho que julga ser melhor para si.

Como boa ex-aluna Waldorf, deixo uma frase do Rudolf Steiner da qual uso e abuso e que fala muito bem sobre isso:

“A nossa mais elevada tarefa deve ser a de formar seres humanos livres que sejam capazes de, por si mesmos, encontrar propósito e direção para suas vidas.”

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A gente tá montando um mapa de quem pode te ajudar em cada estágio de maturidade do negócio que tá assim:

Tenho certeza que falta gente nesse mix. Comenta no artigo que vamos atualizando!

Meu foco é compartilhar conhecimento prático e aplicável para quem tem ou deseja ter uma empresa ou startup. Fundadora da abeLLha.

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