Vivo a realidade à qual dedico a minha atenção

Esse texto foi escrito pelo meu pai-Clo, o Claudio Bertalot.

Apesar de que ela revela suas regras intrínsecas a quem a pratica, existem seguramente tantas formas de meditação quanto há indivíduos. É também vasto o por que da meditação; o “para que?”. Abordarei aqui a meditação, tal como ela pode se configurar, a partir da obra filosófica de Rudolf Steiner.

Meditar hoje seria o exercício de aprender a realmente estar onde se está. Isso soa estranho! Mas quem se dedica um pouco a esse pensamento, logo descobre que raramente estamos inteirinhos no que fazemos ou percebemos. Certa vez dirigindo sozinho liguei o rádio e ouvi a seguinte resposta à pergunta “o que é meditação?” “Meditação é estar no meio da ação!”

Estou levando o meu filho para a escola, pensando nos problemas da minha empresa. O mundo que poderia revelar-se através do meu filho naquele momento, se eu simplesmente estivesse com ele, se oculta totalmente, nem existe para mim nesse instante. Estar com ele, ouvindo-o, percebendo a sua forma de se expressar para, a partir do seu contexto, vivenciar a sua realidade; estar no meio desse acontecimento me descortinaria o mundo, que nesse momento estava encoberto pelo meu viver nos problemas do passado projetados para o futuro.

Vivo a realidade à qual dedico a minha atenção.Posso passar pelo mundo sem ter estado nele, se apenas me dedico aos meus próprios pensamentos. Mas percebo facetas do mundo que antes não existiam para mim quando dedico o meu interesse ao que me rodeia. O caráter e a qualidade da realidade em que vivo depende em alto grau de mim mesmo. Recebo infinitas impressões do mundo à minha volta, mas para que estas façam sentido, tenho que interpretá-las, tenho que explicá-las a mim mesmo: — isto é isto, aquilo é aquilo, etc. Olho pra o mundo através do que eu lhe falo. Quanto mais a ele eu me dedico, mais explicações eu lhe atribuo, mais eu me envolvo com a forma que ele assume para mim.

Do outro lado, quando me dedico a mim mesmo, quando me pergunto quem sou eu, vejo quanto sou feito do mundo em que vivi.Quando olho para dentro passo a ver infinitas imagens do mundo que representam o que eu vivenciei, vejo o mundo totalmente envolvido na imagem que tenho de mim mesmo.

Querer conhecer o mundo esbarra muito forte na percepção de mim mesmo. Querer conhecer-me a mim mesmo esbarra muito forte na percepção do mundo que nas suas imagens preenche a recordação de minhas vivências. Não sei bem até onde vai o mundo que se me apresentou e onde começa a forma que eu lhe atribuí, mas também não sei bem até onde sou eu mesmo em mim e onde começa o mundo que eu vivenciei.

Conhecer-se a si mesmo é, pois, uma forma de melhor conhecer o mundo, mas conhecer melhor o mundo é também uma forma de conhecer melhor a si mesmo.

Retirar-se por um instante dos estímulos sensoriais do mundo para perscrutá-lo no próprio interior, não significaria necessariamente abandoná-lo. O elo da relação eu/mundo são as imagens.

Tanto as imagens do mundo, quanto as de mim mesmo, ficam gravadas na lembrança. Consigo rever interiormente o que vivi lá fora bem como o que vivi aqui dentro. E, toda imagem recordativa contêm tanto algo do mundo, quanto algo de mim mesmo.

A grande dificuldade que hoje enfrenta quem se propõe a meditar é a vasta distração que a nossa cultura nos oferece. Conquistar alguns instantes de concentração e silêncio em meio a balburdia da nossa civilização atual converte-se numa verdadeira batalha. Mas, uma vez desenvolvidos os músculos dessa atividade (que consiste não apenas em reter a invasão da nossa consciência pelos batalhões de imagens, impulsos e desejos advindos da nossa própria organização, mas também em reter a invasão dos exércitos de estímulos externos que na forma dos mais variados ruídos e sons constantemente despencam no nosso interior) uma vez conquistada a concentração devida e o silêncio interior, começam a surgir aos poucos os estorvos mais sutis: nossos hábitos e tendências, nossos preconceitos e expectativas.

Por serem juízos feitos antes de uma experiência ou percepção que os justificassem, os nossos preconceitos são verdadeiros prejuízos. Perdemos a possibilidade de vivenciar, ou experimentar originalmente. Mas é muito difícil descobrir o próprio preconceito, pois sou eu justamente quem não sabe que é preconceituoso. Só o convívio com outras pessoas, de preferência bem diferentes de nós mesmos, pode nos ajudar a descobri-lo. Já, as expectativas são tendências que querem antever as vivências e por isso acabam predeterminando-as. Silenciei as minhas expectativas, se fui capaz de me surpreender. Surpreender-se é a coragem de se abrir para o novo, o desconhecido, o que não vêm para confirmar o que já se sabia, mas para modificá-lo.

Ao contrário do esvaziamento total, que caracteriza um tipo de meditação bastante conhecido — muito saudável, porque procura fazer de forma intencional, o que o sono faz naturalmente: reter um pouco o efeito desgastante da consciência sobre o organismo — a meditação que aqui se propõe coloca nesse silêncio uma imagem.

A primeira vivência significativa que se faz nesse primeiro momento é a de que essa imagem desaparece repentinamente. Isso não ocorre apenas por distração. Também quando ha concentração, a imagem desaparece repentinamente. Depois de repetidas tentativas de trazê-la de volta, pode-se fazer outra descoberta significativa. E assim, a partir desse início, a meditação vai revelando as suas regras, relacionadas, naturalmente, às características específicas daquele que medita, e cada passo que se segue surge como uma necessidade intrínseca.

O repentino desaparecer da imagem e a descoberta da força que a faz perdurar são vivências que logo de início podem atuar na gradativa transformação da concepção usual que se tem de realidade. Isso se os mencionados hábitos e tendências não forem demasiado insistentes em permanecer no habitual.

O fato de que a imagem simplesmente nos escapa e a inicial impotência que se experimenta em relação a esse fato, no final das contas, baseia-se na concepção ingênua de realidade que a nossa consciência comum sustenta. Coisa que a filosofia há muito tempo já chamou de “realismo ingênuo” e que a neurociência hoje fundamenta com uma infinidade de experimentos. A consciência comum, no entanto, não se preocupa com concepções filosóficas, nem com os resultados da neurociência, para ela a flor que ela vê é simplesmente a flor que ela vê e pronto!

Essa concepção ingênua de realidade é tão forte que queremos também simplesmente “ver” a flor, até mesmo na nossa meditação, onde já não há o correspondente sensorial que sustentaria essa visão. O que nós não percebemos inicialmente na meditação, é o mesmo que nós não percebemos quando estamos lá fora no mundo, que: “ver uma flor”, como já disse Fernando pessoa, “é também pensá-la”.

No momento em que eu me dou conta de que para ver e poder manter a imagem da flor no meu interior, tenho que gerar o seu significado, sustentar os gestos e movimentos que lhe dão coesão e nexo, as forças que unem num todo os seus pigmentos visuais, nesse momento eu não apenas compreendo filosoficamente, mas eu experimento vivamente a minha participação criativa na composição da realidade em que vivo. A vivência de que a imagem só readquire a sua vivacidade e perdura na minha consciência quando eu reformulo intencionalmente o significado que lhe pertence, me demonstra também que recordar não é “tirar da gaveta”, essa é apenas a primeira impressão que eu tenho da recordação. Recordar é a capacidade de recriar. O que sustenta a imagem recordativa é a atividade que produz o seu significado. Recrio o movimento integrador que em mim se estabeleceu abaixo, ou antes, da minha consciência, quando através dos meus órgãos de sentido recebi as impressões sensoriais “desintegradas” do mundo.

O sentido que se faz nos órgãos de sentido não é dado por estes, ele é estimulado pela carência de sentido que as suas impressões apresentam. O sentido surge, então, como um complemento integrante, tal como o vermelho gera o seu complementar verde totalizando as três cores básicas. E esse complemento, o sentido, já não é sensorial, pois não é apenas receptivo, como as impressões, é ativo e necessita de um atuante para se manifestar.

Atentando para a qualidade da imagem, p.ex. da flor, que consegui manter no meu interior, percebo, é óbvio, que ela é a uma recordação de uma flor específica, individual. Enquanto que se me atenho à força do significado, através do qual consegui mantê-la na sua vivacidade diante dos meus olhos internos, percebo que este tem caráter mais geral, universal. Este é um conteúdo tão fluido que cabe nele infinitas flores.

Se agora procuro me ater a esse referido conteúdo, como se eu pretendesse tê-lo na consciência sem a imagem à qual ele se refere, ocorre novamente aquele curioso desaparecer. Desaparecendo a imagem, esta parece levar também consigo o conteúdo que a sustentava. Perseverando, entretanto, nessa tentativa ocorre algo inesperado. O conteúdo movimentado, fluido, dos gestos que compõe o significado, inicialmente não se deixa manter na consciência sem a imagem específica à qual ele se refere. Mas, de repente, após várias tentativas, pode-se notar uma modificação na própria imagem, esta começa a assumir também um caráter fluido, tal como o conteúdo, começa a transformar-se numa imagem que adquire caráter universal.

Antes foi através da intencional reformulação do seu conteúdo que eu consegui sustentar a imagem específica com seus pigmentos sensoriais do mundo na minha consciência, agora é através da adaptação da imagem à fluidez do conteúdo, que eu consigo manter o complemento não sensorial do mundo na minha consciência.

Quando eu estava tentando manter a imagem da flor no meu interior, o interesse pelas suas verdadeiras características sensoriais aumentou significativamente, mas estas eu não tenho como encontrar dentro de mim. O mundo torna-se novamente interessantíssimo! Passo a querer observar melhor o que de fato ele me oferece. E, perceber melhor o que realmente os meus sentidos me oferecem, quando estou no mundo, intensifica a atividade complementar que brota de dentro de mim. Essa se fortalece quando o interesse pelo mundo e o silenciar diante das impressões do mundo se confrontam com a carência de sentido que clama pelo seu complemento. É dessa forma que a esperta natureza começa a desenvolver em nós os olhos capazes de contemplá-la de maneira cada vez mais inteira e profunda.

Experimentando a nossa participação na complementação do mundo descobrem-se as capacidades inatas e latentes. Somos participantes. Exercitar dessa forma, o estar onde se está, é trazer à consciência o que os nossos pés, as nossas mãos e o nosso coração, já sabem a respeito do mundo.

O que antes parecia ser dentro agora é fora e eu começo a reconhecer-me a mim mesmo no mundo. A meditação da realidade traz à vivência o caráter interior do mundo em que vivo.

Meu foco é compartilhar conhecimento prático e aplicável para quem tem ou deseja ter uma empresa ou startup. Fundadora da abeLLha.

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